A Copa dos Milagres

Gente, essa semana, uns 80 amigos me marcaram em fotos como essa abaixo, onde cadeirantes “milagrosamente” se levantam durante os jogos da Copa do Mundo.

em pé

Então, eu resolvi escrever sobre isso, pra mostrar as duas faces desse acontecimento mirabolante.

A primeira face é uma vergonha mesmo. Tem gente que se aproveita da situação e finge que é cadeirante pra comprar ingressos e assistir aos jogos. O povo brasileiro, que acha que passa impune e imune a qualquer coisa e não está nem aí mesmo. Aí eu e meus amigos – todos cadeirantes de verdade –  ficamos desesperados, tentando comprar ingressos pra abertura e não conseguimos, enquanto esse povo “biito”, uma gracinhas de educação, vão lá, compram nossos ingressos e foram à abertura no nosso lugar. Dá vontade de soltar os cachorros, mas eu sou uma lady e não farei isso fora dos meus pensamentos.

Uma amiga cadeirante chegou a entrar numa página de venda de ingressos, onde existia o seguinte anúncio: “vendo brasil x méxico R$ 400,00 cadeirante. E se precisar vendo cadeira de roda tbm por R$150,00. E ainda com laudo da deficiência .” Esse anúncio não é pra acabar com o piqui do Goiás. É pra acabar com o piqui do mundo inteiro, meu deus do céu. Mais pensamentos pra você, querida pessoa criativa que escreveu isso.

cadeirante-fica-de-pe-em-jogo-no-maracana-e-imagem-repercute-na-internet

Agora, eu vou falar do outro lado. E me usarei de exemplo, pra ninguém mais ser atacado com críticas.

Existe SIM cadeirante que fica em pé. Eu fico! Pode olhar no meu facebook, no meu instagram, na fan page, na academia e no jogo da Copa das Confederações do ano passado.  Eu preciso me apoiar em algum lugar (na grade, por exemplo) ou em alguém. E consigo me sustentar em pé por menos de 2 minutos. Ou seja, eu não vou conseguir me levantar rápido pra ver o lance que vai levar ao gol. Eu não consigo me levantar rápido se alguma coisa for cair na minha cabeça. Eu não consigo ficar em pé filmando ou fotografando o campo ou o jogo. Mas eu consigo ficar em pé sim! Aliás, eu preciso ficar em pé várias vezes durante o dia, pra aliviar a dor gigantesca na minha lombar. Eu tenho 1 ano e 8 meses de lesão (que completarei dia 22) e estou há 1 ano e 8 meses batalhando pra conseguir ficar em pé!  Então, eu vou ficar em pé no intervalo do jogo sim! E quero ver quem vai tirar minha foto e colocar nas redes sociais falando que sou cadeirante fake.

empe e sentada

Eu não consigo andar. Não consigo me locomover, se não for em cadeira de rodas. Mas isso não quer dizer que eu passe 24 horas do dia sentada ou deitada. Apesar de representar uma pequena maioria entre os lesados medulares (sim, existe mais gente como eu, mas não quero citar nomes, pra proteger os meus amigos), existem lesados medulares que conseguem se manter em pé por segundos ou minutos, com ou sem apoio. E existem pessoas que são monoplégicas, existem pessoas com mobilidade reduzida, outros que usam prótese (como a moça loira da primeira foto). A variedade de “cadeirantes” é imensa.

Outro dia uma pessoa me disse “Você nem é cadeirante de verdade. Suas pernas não são tão finas.” Oi? Eu tenho espasmo! E muito! Vocês sabem o quanto isso dói e pode atrapalhar a minha vida? E eu tenho alguns movimentos de uma perna e eu nunca escondi isso de ninguém (por isso uma perna é mais grossa que a outra).

Uma ex-aluna, e hoje minha amiga, a Ana Carolina de Mello,  disse o seguinte sobre esse assunto: “Penso que para que alguém estar/usar este recurso, os motivos podem ser os mais variados, pode ser o pé quebrado, pode ser plegia com lesão medular a depender muito da lesão, pode ser uma dor e pode também ser uma atitude de má fé. Mas fiquei pensando nestes estereótipos que as pessoas fazem, principalmente quem não é/está/foi cadeirante, usando alguns recursos do senso comum e generalizando, algo como: “quem usa cadeira de rodas não se mexe, não fica em pé e não torce? Não vai ao jogo?” Fico pensando neste olhar assistencialista que estamos habituados a ter: ou temos pena ou julgamos. Poxa! Enquanto cidadãos e em especial enquanto Terapeuta Ocupacional, fico pensando neste espaço que “permitimos” que o outro habite, a partir do nosso julgamento e olhar, muitas vezes preenchidos de conceitos sem maiores críticas e aproximações com a realidade. Claro que podem ter pessoas usando disso para furar filas, ter espaços adaptados – pensando que ele não tem aquela necessidade, pois penso na equidade sempre. Não adianta distribuir óculos para toda população brasileira se nem todos precisamos deles não é?”

Assim sendo, não podemos julgar ninguém, nem falar nada sem antes conhecermos a verdade! Enquanto muitos estão realmente agindo de má fé, outros estão ali, como eu estarei, por direito adquirido (e não pense que foi gostoso adquirir esse direito). Estarei cantando, torcendo, gritando, vaiando, vibrando, em pé e sentada.  Vai me ver em pé no intervalo do jogo e me criticar? Senta aqui na minha cadeira, no meu lugar! Quer trocar? :p

124 respostas em “A Copa dos Milagres

  1. Dani, em primeiro lugar quero lhe parabenizar pelo excelente texto. Em 2º quero lhe dizer que compartilho de sua vontade de soltar os cachorros, mas não só nas pessoas que fraudam, se é que há mesmo uma fraude, como todos os agentes, médicos, vendedores de ingressos, enfim, toda a corja que sabemos, se junta quando a ordem é tirar vantagem. Mas também fico indignado que em plena era da internet, das redes sociais, do google e da possibilidade de conhecimento instantâneo, ainda existam pessoas que manifestam suas opiniões em geral preconceituosas e discriminatórias, sem antes tentar se informar sobre o assunto em pauta. Felizmente pessoas como você tomaram a frente na atitude de esclarecer um pouco a ignorância (do verbo ignorar) deste povo. Sou deficiente físico, ou pessoa com deficiência, como querem os “politicamente corretos”, desde os 10 meses de idade, vítima que fui de uma poliomielite que naquela época (início dos anos 1960) assolava as crianças do país. Resultado disto, perna direita 100% inerte, perna esquerda com 60% da capacidade motora e sensitiva preservadas e uma pronunciada escoliose dorso-lombar. Até o ano passado, com o auxílio de bengalas canadenses e de um aparelho ortopédico, eu caminhava tranquilamente, além de durante a juventude ter uma vida quase que totalmente normal, jogando futebol, pulando muro, brincando de esconde-esconde, dançando nas festinhas de adolescente e tudo o mais. Ano passado, em decorrência de uma complicação do diabetes quem me diminuiu o equilíbrio e o controle das pernas, optei por usar cadeira de rodas, por conforto e principalmente por segurança. Ainda consigo ficar em pé, dar meus passos, e não poucos, porém, as longas distâncias já não venço com pernas e bengalas, até pela questão do equilíbrio, cada vez menor. Então, eu sou quase que exatamente o deficiente físico (eu insisto no termo) que, num jogo de futebol, deveria ser fotografado e filmado como um “fraudador”, a exemplo da menina da foto, e olhe que minha paraplegia já completou 50 anos. Eu comprei ingressos para a Copa do Mundo no local destinado a PCDs, com direito a acompanhante, por que é meu direito e a cada gol ou lance importante, ou no intervalo da partida, me levantei e dei uns passos, para aliviar minhas terríveis dores lombares (acho que já li isto por aqui). Quando da retirada dos ingressos, fui informado de que precisaria comparecer pessoalmente ao local, para que pudessem verificar a veracidade da minha deficiência, não bastando o laudo médico nem a carteira municipal de estacionamento privativo. Por este motivo, coloco em cheque a existência de tal fraude, sem negar-lhe a possível existência, além, é claro, por todos os seus argumentos e explicações brilhantemente expostos em seu texto. Gente como você é muito necessária na luta dos PCDs a favor da conquista da total acessibilidade e contra a escuridão do preconceito e da discriminação. Parabéns e obrigado.

  2. Pingback: A cadeirante que ficou de pé | blog da kikacastro

  3. Dani, vim parar aqui por causa desse post e agora vou acompanhar sua história. Vc disse tudo o que eu penso!! Tenho certeza que como fisio, vou aprender mto por aqui. Beijos

  4. Não te conheço, mas achei super ótimo o seu texto!! As pessoas estão tão habituadas em julgar, que sequer pensam na possibilidade de existir explicações, como as suas!!! Parabéns pela última frase do texto!! Perfeita!! Eu tenho 11 graus de miopia e uso lentes de contato…muita gente sequer imagina que tenho tamanha dificuldade para enxergar…Não se compara com a dificuldade que é não andar, mas entendo perfeitamente o que vc sente quando vê posts assim…

  5. a minha pergunta é: o local é reservado para cadeirante ou para pessoas com deficiência física, porque aí existe uma grande diferença… não sou cadeirante, mas sou deficiente (uso prótese em uma das pernas amputadas), e se fosse ao estádio, com certeza faria uso da cadeira, pois apesar de andar, não consigo fazer em longas distâncias, como tenho visto que é pra se chegar e entrar nos estádios da copa, mas também conseguiria ficar em pé e andar caso fosse necessário… a pessoas estão confundindo as coisas também, só pq o símbolo internacional de de deficiente é um cadeirante não significa que os outros não são… há de se saber antes de julgar… infelizmente sei que existe muita picaretagem no Brasil, sofro muito diariamente por causa das vagas de estacionamento reservadas e a falta de respeito das pessoas do “é só um minuto”, mas aí generalizar…

  6. Oi! Não concordo muito com isso. Especificamente nos locais reservados para cadeirantes, geralmente as pessoas permanecem sentadas. Por exemplo, no Mineirão, os voluntários sempre fiscalizam e pedem para que os acompanhantes permaneçam sentados. Caso contrário, atrapalharemos a visão dos torcedores que ficarem atrás do local para cadeirantes. Acho que é uma questão de respeito e de educação. Tanto na Copa das Confederações quanto na Copa do Mundo, em momento algum verificaram minha condição de cadeirante, seja no Estádio ou na hora de buscar os ingressos. Vale lembrar também que os critérios para compra de ingressos para cadeirantes não eram os mesmos das pessoas com mobilidade reduzida. Enfim, acho super válida sua explicação. Mas, independente de ser fraude ou não, creio que o local reservado para cadeirantes seja, primordialmente, para pessoas sentadas. A não ser, é claro, que não exista mais nenhuma pessoa atrás de nós.

  7. nossa Dani entrei por acaso no seu blog através do vídeo que vi no face. deparei-me com esse comentários de pessoas que tem essas necessidades especiais (falo isso por não ter tido contato com pessoas assim perto) mas em seu blog entrei em um mundo novo que ele descreveu muito bem. parabéns pelo texto confesso que nesse contexto é o primeiro que entro. mas hoje por acaso aprendi uma coisa nova. eu escrevo por hobby, romance e sim ja tive uma ideia de uma historia que envolve uma personagem que no meio da historia fica necessidades especiais, ia futuramente, quando colocar a ideia p papel pesquisar mais sobre assunto. e gostei muito de hoje por acaso já me deparar com esse mundo. e gostei que não foi diante da minha pesquisar. foi pelo acaso e a verdade que esse é o bonito de compartilhar desse momento agora “o acaso”

  8. Faz tempo que esses compartilhamentos estão me irritando. E você escreveu a resposta perfeita para esses que pensam ser justiceiros e moralistas de plantão, compartilhei esse texto. O último parágrafo é um soco no estômago dos desinformados. Parabéns!

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  10. Muito bom seu post. Eu publiquei ontem mesmo sobre esse assunto no meu facebook, e mesmo assim ainda hj vi vários compartilhamentos sobre os cadeirantes que registraram na copa. Estou indignada com a repercussão desse assunto e de como as pessoas julgam os outros em um assunto tão sério e de forma tão maldosa. Parabéns pelo texto.

  11. Olá Dani, sou Rosilene e estou estarrecida com o tamanho da falta de conhecimento do povo.Eu sofri um acidente á 4 anos e tive um diagnostico de tardio de lesão no nervo ciático e fibular perdi os movimentos da perna direita e um pouco do quadril, passei pelo hinto , gafree, e pelo dr Gaspar professor da pontifica, uso muletas e cada dia é mais difícil de andar me sugeriram uma cadeira de rodas o médico da aacd, mais eu consigo andar pouco espaço,fico em pé é difícil só que eu não desisto, sou abordada a todo instante com pessoas que não sabem da minha vida e sou constantemente criticada, afrontada, humilhada quando entro no ônibus,em fila por causa da ignorância das pessoas hoje aprendi que é meu direito assegurado por lei,não pedi para ficar assim quem estar incomodado se quiser fique com o problema que eu tenho, mais é muito triste porque não há respeito algum, as pessoas entende que deficiente é só cadeirante, cego e que cadeirante tem que ficar condenado a não se levantar nunca, mas não é assim quando fico em uma fila é torturante, pelas dores e as pessoas acham que não temos nada para fazer em casa, ficam falando assim: porque não manda um parente pagar a conta, mais muitas das vezes as pessoas não tem quem faça isso e ai? Deixa de viver? Não paga as contas? é nas casas lotéricas em ni eles não respeitam mesmo se o respeito começassem pelas lojas estabelecimentos públicos, e a policia e principalmente pelas pessoas as coisas iriam começar a melhorar. Deixo o meu desabafo e indignação pelo fato.

  12. OI SOU CADEIRANTE ME CHAMO. DAVID VILLAMAYOR POSADA. TENHO LESÃO MEDULAR ,
    C-7 E C-8 E SOU OBRIGADO A ANDAR DE CADEIRA DE RODAS NA RUA PARA MINHA SEGURANÇA , PARA QUE EU NÃO CAIA MAIS POR QUE ME FALTA O EQUELIBRIO, MAS EM CASA SIM, CONSIGO FAZER AS COISAS SOZINHO , COMO LAVAR LOUÇA NA PIA E FAZER ALGUMAS COISAS COM COZINHAR MAS APOIADO NUMA MOLETA E NÃO E POR ISSO QUE VOU FICAR 24 HORAS CENTADO NUMA CADEIRA DE RODAS . AGORA TEM GENTE QUE VE A GENTE DE PE , E JÁ PENSA QUE ESTAMOS COM MENTIRA PA CONSEGUIR AS COISAS MAIS NÃO É FACIL E NÃO E BEM POR AI , E COMO MUITOS , ALGUNS DE NOS QUE SOMOS LECIONADOS MEDULARMENTE, SIM PODEMOS FICAR DE PE APOIADO EM ALGUMA GRADE OU PAREDES OU MESNO APOIADO EM UM OMBRO AMIGO , OU DE OUTRA PESSOA , POR ISSO AS PESSOAS QUE NÃO SABEM O QUE FALAM E NEN O MUITO MENOS O QUE ENCHERGAM. DEVERIAM CUIDAR DA VIDA DE SÍ MESMO A DEIXAE DE FAZER OU FALAR BESTEIRA E POSTAR FOTOS SEM SABER QUAL É O ASSUNTO QUE SE PASSA NAQUELE MOMENTO .

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